"Se fosse autista de verdade verdadeira tinha sido diagnosticado na infância" - comum, Pessoa
Será mesmo?
"Nossa, mas como ele foi diagnosticado só na vida adulta? Não teve prejuízo nenhum na infância?"
Provavelmente teve.
Mas vamos lembrar de uma coisa?
Quem é adulto hoje, nascido de 2000 pra trás, não teria sido diagnosticado como autista na infância a menos que seja nível 3 e/ou tenha deficiência intelectual. Porque era só isso que existia de diagnóstico.
"Ah, mas tinha a síndrome de Asperger".
Tinha. Mas não era comum ir ao psiquiatra porque o filho usava vocabulário acima do normal, porque não conseguia interagir com os pares, porque não aceitava as coisas que não fossem do jeito dele.
Não era comum ir em psiquiatra, ponto. Neuro? Pra casos de epilepsia, paralisia cerebral e olhe lá.
Tudo que eu descrevi era basicamenbte resolvido no chinelo, castigo e chamado de 'criança teimosa'.
Aí entra meu ponto, de que muitos prejuízos do autismo só ficam visíveis na vida adulta.
Quando você é uma criança autista, mas não dá trabalho na escola, o que acontece? Nada.
Você pode ter dificuldade pra interagir do jeito "normal" com seus pares, ter um ou dois amigos ou nenhum, mas enquanto não estiver atrapalhando a aula ninguém vai achar que é um problema.
Se seus interesses restritos forem comuns pra idade/época, só vão te zoar mesmo. Se não forem, vai ter bullying e impactar sua saúde mental.
Mas você ouvia falar de saúde mental 10, 20, 25 anos atrás?
Lembrando que nem toda cidade tem neuropediatra e psiquiatra infantil, nem toda família é funcional ou tem adultos responsáveis, que antes de 1988 só tinha acesso à saúde pública quem contribuía para Previdência Social.
Se você fica exausto mentalmente da escola e dorme à tarde, ninguém acha estranho.
Se você falta alguns dias porque está em sobrecarga, não perde a vaga na escola.
Querendo ou não, toda criança e adolescente tem mais suporte de adultos, seja pra organizar rotina, locomoção, alimentação.
Mas quando você faz 18 e vira adulto e fica todo pimpão que agora vai viver sua vida, o que geralmente acontece?
Todo ou a maior parte do seu suporte acaba.
Se faltar muito na faculdade, pega DP porque não acompanhou a matéria.
Se faltar um dia por semana, perde o trabalho.
É esperado que você consiga gerenciar sua rotina, seus compromissos, sua alimentação, suas interações sociais, seu trabalho, seu deslocamento sem prejuízo e sem suporte.
E o que você vê? Todos colegas da mesma idade cansados, sim, mas dando conta. E você não.
Aí começa a ficar mais claro o prejuízo e as dificuldades. E a diferença entre os neurotípicos e o autista.
Sim, o autista diagnosticado tardiamente 'chegou até aqui', mas aos trancos e barrancos e provavelmente com um monte de co-ocorrências que talvez não existissem caso ele tivesse sido visto, diagnosticado e tratado na infância.
Depressão, transtorno de ansiedade generalizada, TOC entre muitos outros. E tratar eles + o autismo também não é simples e não é qualquer profissional que consegue.
A vida adulta não trata ninguém como café com leite.
Se você tem dificuldade de se comunicar e entender linguagem não verbal no trabalho, você provavelmente não vai durar muito nele.
Se você entra em burnout e depressão pela sobrecarga social, mental e sensorial que o transporte público + seu trabalho + seu estudo te causam, você vai ficar desempregado, sem faculdade e sem sustento. E sem sustento, você não tem acompanhamento de qualidade, você não come e você provavelmente não tem onde morar, se não tiver mais como morar com sua família.
Então ao invés de fazer uma presunção rasa como um pires de que os adultos diagnosticados tardiamente não são autistas mesmo, pense um pouco em como esse autista sobreviveu até esse diagnósstico, e o que ele enfretou e enfrenta até aqui.
Muitos de nós está a uma perda familiar/conjugal de não ter mais como se alimentar, morar e sobreviver.
